
Terror / Mistério
A Casa de Terror
13 episódios
Uma família chega à sombria Blackwood Manor, onde o passado permanece à espreita.
Degustação gratuita
Episódio 1 — O Inventário dos Ausentes
O rangido da suspensão dianteira da perua Mercury 1978 cortou o ar abafado do final de tarde como uma faca cega raspando uma panela de ferro. Sob as rodas, os cascalhos cinzentos, quebradiços e cobertos por uma fina camada de limo seco estalavam com estalos secos, projetando poeira avermelhada contra a lataria já corroída pela maresia distante. No banco do motorista, Arthur Miller manteve as duas mãos firmes nas ranhuras gastas do volante de baquelite preto. Suas palmas estavam empapadas de suor tépido, colando a pele na superfície fosca onde pequenos sulcos guardavam resíduos de sujeira e viagens anteriores. Ele soltou o ar devagar, sentindo as costelas descerem contra o estofamento puído de vinil bege, cujo cheiro adocicado de mofo e tabaco velho impregnava a cabine há mais de duzentos quilômetros.
Ao seu lado, no banco do passageiro dianteiro, Eleanor mantinha os dedos cruzados sobre a saia xadrez de lã grossa. O tecido áspero picava a pele fina de suas coxas a cada sacolejo da descida. Ela olhava fixamente para além do para-brisa riscado pelas palhetas ressecadas. A vidraça trazia um padrão de círculos opacos, manchada por respingos de insetos secos que Arthur não conseguira remover no último posto de gasolina na saída da rodovia estadual. Os olhos castanhos de Eleanor, antes cheios daquela vivacidade quase ruidosa que dominava os jantares de domingo em New Haven, pareciam agora dois poços estagnados, refletindo apenas a silhueta da construção que emergia por entre a cortina de faias negras e carvalhos retorcidos.
A propriedade de Blackwood Manor não se erguia de uma só vez; ela parecia ter sido expelida pela encosta rochosa ao longo de décadas de abandono e umidade. A fachada combinava pedras de cantaria escuras, com arestas comidas pelo salitre e juntas escurecidas por musgo espesso, com vigas de carvalho enegrecido que sustentavam três pavimentos assimétricos. No teto, telhas de ardósia cinza-chumbo estavam quebradas em padrões irregulares, lembrando dentes cariados apontados para as nuvens baixas de tempestade que avançavam do leste. Uma torre pontiaguda, coroada por um cata-vento de ferro forjado em forma de dragão alado — cuja asa esquerda fora arrancada em algum vendaval esquecido —, rangia num tom monocórdico, girando apenas alguns milímetros quando uma rajada de vento frio varria o vale.
No banco traseiro, Thomas, de apenas nove anos, mantinha o rosto colado ao vidro lateral. Sua respiração ritmada criava pequenas manchas ovais de condensação que se apagavam e renasciam no ritmo de seus pulmões. O menino apertava contra o peito um atlas escolar encadernado em pano azul, com as bordas puídas e as pontas das páginas dobradas. Ele passava a ponta do polegar pela costura de linha branca, sentindo os nós e as imperfeições da encadernação barata, recusando-se a soltar o volume mesmo quando o carro deu um solavanco mais brusco ao passar sobre a raiz exposta de uma árvore centenária.
Arthur desligou o motor. A chave de latão emitiu um estalo metálico seco no tambor da ignição. O motor de oito cilindros não morreu de imediato; ele trepidou duas vezes, tossiu uma baforada de fumaça cinzenta pelo escapamento traseiro e finalmente silenciou. Foi quando os sons da colina invadiram a cabine: o gotejar lento da calha enferrujada sobre os degraus de granito da entrada, o sibilar do vento entre as agulhas dos pinheiros e o grasnido rouco de três gralhas pousadas no beiral da torre.
— Não tem campainha — disse Arthur. Sua voz soou raspada, seca na garganta, como se precisasse de um copo de água mineral para limpar a poeira da estrada. Ele engoliu em seco, sentindo a cartilagem da tireoide subir e descer sob o colarinho engomado de sua camisa de popeline azul.
Eleanor não respondeu de imediato. Ela moveu lentamente a cabeça para a esquerda, os brincos de prata martelada — um presente do pai de Arthur no dia em que anunciaram o noivado — balançando levemente e roçando a curva pálida de sua mandíbula. O metal estava gélido contra sua pele. Ela ergueu a mão direita, ajustou uma mecha de cabelo castanho que escapava do grampo de tartaruga atrás da orelha e só então virou os olhos para o marido.
— Ninguém viveu aqui desde o outono de sessenta e dois, Arthur — ela falou num tom contido, quase inaudível, as cordas vocais vibrando com uma cautela que beirava o temor reverente. — Se houvesse uma campainha, os fios estariam partidos sob o assoalho há mais de vinte anos.