Capa do livro Gumiho: A Lenda Viva

Fantasia sombria

Gumiho: A Lenda Viva

Temporada 1: O Despertar das Nove Chagas

Uma lenda viva desperta entre antigas runas e as sombras de Val-Verde.

Degustação gratuita

Capítulo 15 — A Ravina das Águas Ocultas

Batida 1: O Abrupto Despencar na Fenda e o Gelo da Correnteza

A lufada de vento gelado e úmido que subiu do leito oculto do riacho de Val-Verde bateu contra o peito de Gumiho com a força de um soco desferido por uma luva de chumbo, trazendo consigo o cheiro fétido de lodo congelado, musgo em decomposição e o resquício químico do enxofre que ainda escoava das canaletas industriais da montanha. O impacto da bota pesada do guardião contra a margem lamacenta da ravina secundária produziu um som abafado, quase imperceptível, afogado pelo fragor da correnteza subterrânea que corria à esquerda da fenda, separada do estreito caminho de pedra por uma barreira natural de pedregulhos cobertos por uma crosta espessa de geiva branca. A claridade vermelha e alaranjada das tochas da Guarda Escarlate, que antes iluminava a entrada do desfiladeiro de bétulas, dissipou-se de súbito ao ser cortada pelo desnível vertical do terreno, deixando o grupo envolto em uma penumbra cinzenta e espectral onde apenas o fulgor escarlate da matriz de bronze e obsidiana unificada, mantida no estojo de teixo negro junto ao esterno do guardião, recortava na escuridão absoluta os contornos angulosos da rocha nua e os veios verde-esmeralda de malachite incrustados nas paredes da garganta.

Atrás da imponente carcaça do imortal, Vaelen sustentava o próprio equilíbrio com a precisão mecânica de quem convertera a dor lancinante em uma engrenagem de sobrevivência estrita, desabando o peso do corpo sobre o antebraço esquerdo apoiado contra a aspereza gélida da rocha viva enquanto a perna direita, imobilizada pela tala rígida de urze-vermelha e linho encerado, arrastava-se com um atrito surdo sobre o cascalho miúdo, liberando a cada metro percorrido uma onda de calor febril que parecia corroer os tecidos moles ao redor de seu maléolo fraturado. O suor frio, misturado à fuligem de carvão e ao sal de suas lágrimas contidas, encharcava as bochechas pálidas da garota, colando as mechas desfeitas de seus cabelos castanhos à sua testa febril e criando uma máscara rígida que repuxava a pele de suas têmporas a cada respiração arquejada. A mão direita de Vaelen mantinha o cabo de osso de cervo da faca rústica firmemente empunhado contra a coxa, com a ponta de aço voltada para a frente, pronta para retalhar qualquer ameaça que brotasse da neblina sulfurosa da ravina. Seus olhos verdes e dilatados pela escuridão absoluta varriam o vazio lateral com a desconfiança felina de uma caçadora acuada, recusando-se a admitir a vertigem que ameaçava desestabilizar sua consciência a cada lufada de ar viciado que entrava por sua traqueia inflamada.

A opressão daquela escuridão sem fim arrastou a mente de Vaelen para o inverno da fome em Mir-Valen, quando os celeiros comunitários haviam sido lacrados pela Guarda do Duque sob a acusação de sonegação de sementes para a campanha do norte. Ela se lembrava de ter passado três dias inteiros trancada no porão escuro da olaria de seu pai, dividindo o espaço exíguo com sacos vazios de estopa e o cheiro enjoativo de cal virgem úmida, ouvindo o barulho dos ratos roendo as vigas de sustentação e o estalar gélido da geada que trincava as telhas de argila no teto. Seu irmão Taelen descia todas as noites pela tubulação de cinzas para lhe entregar um punhado de grãos de milho tostados e um caneco de água recolhida da calha da chuva, repetindo com a voz infantil trêmula que a escuridão debaixo da terra não durava para sempre, pois a mola do relógio do mundo sempre voltava a girar quando a primavera derretia a neve dos cumes. Aquele eco fraterno ecoava agora em sua mente como um comando imperativo: ela não desfaleceria naquelas catacumbas; manteria os dentes travados, o passo firme e a lâmina pronta até que o granito da montanha desse lugar à luz livre das florestas do sul, recusando terminantemente qualquer concessão à fraqueza física que ameaçava paralisar seus membros inferiores.